segunda-feira, 13 de julho de 2009

Acreditar


Há minutos que valem por dias. Hoje foi um desses dias em que, por minutos, abandonamos a capa do nosso ser social, a pequenez da nossa rotina e pensamos um pouco sobre o que realmente dá sentido aos nossos dias, à nossa vida. Mais longos são esses minutos quando a pessoa com quem falamos é uma pessoa boa, lutadora como poucos e amiga que não tem tido da vida a retribuição que merece, aparentemente.
"Gostava de acreditar" disse-me, num daqueles momentos em que pomos os nossos deveres e haveres no prato da balança da vida que lhe tem sido bastante devedora, aparentemente.
Na minha opinião, acredito que a vida é um dom que nos é dado, uma tela em branco que vamos preenchendo com pinceladas da côr que escolhemos, com as formas que decidimos traçar. No entanto, nem todos temos a chamada veia artística e por isso o resultado final nem sempre é uma obra de arte e, para além disso, temos que pintar a tela com a palete de cores disponíveis e com pincéis, mais ou menos afiados pelas maldades da sorte ou do azar.
A nossa fé, as nossas convicções, ideais e princípios de vida, a rectidão do traçado que desenhamos são tremidos pelos abanões da vida. A perda de ente queridos, a doença, a maldade, a mentira, a falsidade, o cinismo são borrões que nos aparecem na tela, que nos fazem questionar o porquê de tudo isto, o porquê de tanto sofrimento, de tanta dôr quando pura e simplesmente não o merecemos. Daí acabarmos por questionar o próprio sentido da vida.
Nesses momentos, acredito que, para vermos o quadro na sua totalidade, nos devemos afastar para procurar ver as coisas de uma perspectiva mais distante para perceber o quadro maior e tudo aquilo de bom que há nele. É nesse momento e dessa distância que vemos aquilo que é verdadeiramente importante, o que temos de bom na nossa vida e a que temos de dar valor. É aí que nos apercebemos que ainda que o prato mais pesado não seja o das alegrias,estas, valem mais que mil acidentes de percurso.
A tela que desenhámos em vida há-de ficar cá por muito mais tempo que nós, há-de deixar memórias, suscitar sorrisos, lágrimas de choro ou alegria em todos aqueles com quem privámos e que acabaram por nos inspirar na sua criação.
Quanto a nós, eternos pintores de telas em branco que vamos apurando o nosso traçado pela mão da experiência e das aprendizagens de vida, iremos criar novas telas algures mas, para já, vamos, então, apurar os pormenores da tela que pintamos agora para não repetirmos os mesmos borrões na próxima. Eu acredito.

1 comentário:

  1. Eu também. Tu estás na minha tela. Num cantinho cheio de boas memórias e reservado às pessoas com quem gosto de conversar.

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